sexta-feira, 24 de abril de 2015

Um Pé em cada Canoa...

Pesquisando na Internet deparei com este texto o qual concordo em gênero, número e grau. As religiões afro-brasileiras estão cada vez mais sincretizando, no plural o já, absurdo sincretismo que casas de culto ao Orixá Tradicionais lutam tanto para se retornar às raízes, assim sendo tomo a liberdade de publicar neste meu Blog um texto do Autor:Babalawo Ifagbaiyin Agboola. Que se segue abaixo intitulado "Colcha de Retalhos":

Constantemente sou procurado por pessoas que alegam que suas vidas estão paradas e que os resultados esperados por elas com a religião, não aconteceram.

Primeiramente casa de orixá não é agencia de emprego e muito menos é consultório destinado a tratar de problemas sentimentais.

Quando vou visitar a casa de muitos dos que se dizem com problemas espirituais já na chegada eu me surpreendo quando alguém que cultua orixá tem um assentamento de exu tranca rua e uma pomba gira.

Quase sempre encontro o famoso assentamento do caboclo, como se isso existisse, além de uma bandeira branca hasteada para tempo.

Em um diálogo com o dono da casa descubro que ele se incorpora com um baiano, um exu catiço, um caboclo e evidentemente não poderia faltar um cigano, além do primeiro orixá, do segundo etc e etc

Alguns moram em apartamentos e conseguem reunir tudo isso, outros mesmo morando em casas espaçosas conseguem fazer uma tal colcha de retalhos que é de surpreender que ainda se encontrem lúcidos.

Se a casa é de culto a orixá necessita ter exu de orixá, evidentemente não tem bandeira branca porque isso faz parte do culto a Inquice.

Além disso fica estranho que caboclo sendo parte da religião conhecida como umbanda, tenha assentamento, a imaginação e a criatividade de alguns criou regras inquebrantáveis para outros.
A expressão conhecida como bola da vez está sendo usada nesse memento para o ifá, não comparando, é o último pedaço de retalho na colcha da ignorância.

Depois querem os menos avisados que tudo isso funcione em seus benefícios, desconhecem eles as regras básicas que se aplicam quando temos discernimento e coerência.

O que me deixa estarrecido diante de tais absurdos são as acomodações feitas onde os supostos espiritualistas se incorporam com trezentos entidades e nenhuma delas os avisa que estão fazendo maluquices.

Será que eles recebem algum espirito mesmo?

A mistura de cultos afro-brasileiros com superstições europeias e ritos católicos, me faz imaginar o resultado final, decepção além de perda tempo e dinheiro.

Mas como dizem os sábios de plantão, cada um é rei em sua casa e pode fazer a colcha com os retalhos coloridos que quiser.

Os laboratórios estrangeiros agradecem com suas contas bancarias satisfeitas, eles seguem vendendo para os brasileiros todo tipo de drogas.

Para acreditar em alguém que joga búzios, joga cartas de tarô, consulta runas e se incorpora para dar consulta, só tomando remédio para labirintite.

É lamentável mas grande parte do povo gosta disso, de fitinha do Bonfim no pulso, a pular sete ondas e comer lentilha na entrada do ano, cada um acredita no que quer, só não vale culpar os orixás ou querer mágica.

terça-feira, 7 de abril de 2015

OLOOOGUNEDE




OLOOOGUNEDE

Orisà masculino. É a beleza em pessoa. O encanto dos jovens, o namoro, o flerte, a ingenuidade do jovem, a adolescência. É a divindade dos rios, senhor da pesca, que vive seis meses com o pai, Òsóòsi, nas matas caçando e seis meses com a mãe, Òsún, nas águas doces pescando. Está presente no brilho do olhar, no perfume das flores. Porém encontramos também na intriga, no segredo maldoso, pois ele é capcioso, matreiro, inventivo, meio moleque, mas rege fundamentalmente o carinho, o gesto meigo, o afago, pois, trata-se de um Orisà extremamente dengoso, mimado, dependente, ciumento, singelo e manhoso. Logunedé ou Logun Edé, é um orixá africano que na maioria dos mitos costuma ser apresentado como filho de Oxum Ipondá e Oxóssi Inlè ou Érinle. Segundo as lendas, vive seis meses nas matas caçando com Oxóssi e seis meses nos rios pescando com Oxum. É cultuado na nação Ijexá como sua mãe, mas também nas nações Ketu e Efan, sendo o seu culto muito difundido no Rio de Janeiro.


Logunedé - escultura de Carybé em madeira, em exposição no Museu Afro-Brasileiro, Salvador, Bahia, Brasil

No entanto, existem outras versões acerca de sua filiação. Se na maioria dos mitos, Logunedé surge como filho de Oxum e Oxóssi, em outros, um pouco mais raros, aparece como filho de Ogun e Iansã. Há, ainda, histórias que contam a lenda de Logunedé como filho desses quatro Orixás, apresentando-o como nada mais, nada menos que uma representação dos Orixás Gêmeos, Ibeji. Simultaneamente caçador e pescador, Logunedé é o herdeiro dos axés de Oxum e Oxóssi que se fundem e se mesclam como mistério da criação, trata-se de um orixá que tem a graça, a meiguice e a faceirice de Oxum à alegria, à expansão de Oxóssi. Se Oxum confere a Logunedé axés sobre a sexualidade, a maternidade, a pesca e a prosperidade, Oxóssi lhe passa os axés da fartura, da caça, da habilidade, do conhecimento. Essa característica de unir o feminino de Oxum ao masculino de Oxóssi, muitas vezes o leva a ser representado como uma criança, um menino pequeno ou adolescente, formando mais uma tríade sagrada na História das religiões. Com Logunedé, completa-se o triângulo iorubá pai, mãe e filho que também se repete nas trilogias católica (Pai, Mãe e Espírito Santo), egípcia (Ísis, Osíris e Hórus), hindu e tantas outras.
Como símbolo da pureza, muitas vezes Logunedé também é visto como um ser andrógino. Ao contrário do que muitos pensam Logun Ede não é de características masculina e feminina, não é bissexual. Na verdade possui uma grande relação com Òsun, sua mãe e com Erinlé, seu pai, trazendo consigo a personalidade desses dois Òrìsà e algumas características marcantes, mas nada que o transforme em um hermafrodita que durante seis meses é Oboró e seis meses Ìyábá como algumas pessoas assim o dizem e usam deste artifício para denotações homossexuais. Existem templos para Logun Ede em Ilesa, seu lugar de origem, onde em alguns itans é citado como um corajoso e poderoso caçador, que tamanha coragem é relacionada a de um leopardo. Casado com três esposas. De culto diferenciado e totalmente ligado ao culto a Òsun, é um Orisa de extremo bom gosto. Seus objetos devem permanecem junto aos assentos de Osun e sempre quando agradado devemos agradar sua mãe. Tem predileção ao dourado, é um Orisa muito vaidoso, é considerado o mais elegante de todos os Orisas. De Òsun, sua mãe, Logun Ede herdou o lado belo e vaidoso. Pois Òsun lança mão de seu dom sedutor para satisfazer a ambição de ser a mais rica e a mais reverenciada. Deusa da fertilidade, na Nigéria é dela o rio que leva o seu nome e no Brasil dela são as águas doces dos lagos, fontes e rios. Água que mata a sede dos humanos e da terra, que assim se torna fecunda e fornece os alimentos essenciais à vida. Òsun menina dengosa, passando pela mulher irresistível até a senhora protetora, Òsun é sempre dona de uma personalidade forte, que não aceita ser relegada a segundo plano, afirmando-se em todas circunstâncias da vida. Com seus atributos, ela dribla os obstáculos para satisfazer seus desejos. De Erinlé, seu pai, Herdou o dom da caça, pois Erinlé é da família dos Ode e seu símbolo é o ofá, a lança de caça e o ogue. Erinlé é a representação do desenvolvimento do homem, conhece os segredos da caça,     também símbolo de prosperidade e formação de comunidades. Ele busca o alimento com coragem e é considerado o guerreiro das matas, é corajoso, viril e Logun-odé tem estas características, é um Òrìsà guerreiro. Mas se, em várias tradições, ele é considerado um orixá masculino, em algumas é confundido com a homossexualidade ou a bissexualidade, o que ocorre quando se interpreta ao pé da letra o mito que afirma viver Logunedé seis meses como homem e seis meses como mulher. Na verdade, a interpretação mais aceita seria que essa se trata de uma metáfora para falar dos axés herdados por ele de seus pais, Oxum e Oxóssi. Após ser abandonado e viver com Ogum, aprende com ele as artes da guerra e da metalurgia. É coroado por Iansã como o príncipe dos Orixás. É amigo íntimo de Yewá, seriam eles os Orixás que se complementam, considerados o par perfeito. Num mito raro, Logunedé se perde no caminho entre as casas de Oxum e Oxóssi, é encontrado pelo velho Omolu que o ampara e protege. Com Omolu, Logunedé aprende a arte da cura e a feitiçaria. O seu primeiro nome, Logun, no Brasil se mesclou ao segundo, Edé, nome da cidade iorubá na qual o seu culto se fortaleceu, formando Logunedé. Logun pode ser uma abreviatura de Ologun que, em iorubá, quer dizer feiticeiro. Então, feiticeiro, caçador, pescador, príncipe guerreiro, esses são alguns títulos, alguns epítetos dados à Logunedé. Para Mãe Menininha do Gantois, "Logun é santo menino que velho respeita". Costuma ser cultuado no candomblé, mas não na umbanda.
Características:Logun-Edé é o Orixá originado do encanto, ou encantamento de Osossi e Osun. Divindade dos rios, senhor da pesca. Logun-Edé vive seis meses com o pai, Osossi, na caça e seis meses com a mãe, Osun, na água doce. Ambos ensinariam a Logun-Edé a natureza dos seus domínios. Logun-Edé não é um Orixá “metá-metá”, ou seja, um Orixá de dois sexos, embora divida o tempo com os pais, Logun-Edé é um Orixá masculino. Ele é a beleza em pessoa, o encanto dos jovens, o namoro, o flerte. Rege a ingenuidade do jovem, a adolescência, a beleza adolescente. O seu encanto está no primeiro beijo, no primeiro abraço, no primeiro carinho. Está presente no brilho do olhar, no perfume das flores e numa paisagem singela. É também o deus da arte, o príncipe do que é belo, das águas doces, da caça, da alegria. Logun-Edé está encantado nos pequenos animais, como o coelho, o porquinho-da-índia e os pequenos pássaros, no mato baixo, nas matas pouco densas e principalmente nos rios, sua morada predileta. Está ligado às artes de pintar, esculpir, escrever, dançar, cantar; como o seu pai Osossi e ligado ao banho, pois também é filho de Osun, deusas das águas doces.
Mitologia: Filho de Òsóòsi Iboalama com Òsún Ye Ye Ponda. Olooogunede, sempre foi considerado como Príncipe, filho de reis. Menino arisco, teimoso, levado, brincava sempre além dos limites da regência de sua mãe, a cachoeira. Porém era admirado por todos e muito querido também.
Precauções: Tomar cuidado com acidentes, mar, fogo e mata fechada.
Elemento: Terra / Água.
Dia da Semana: Quinta-feira e Sábado.
Semana Yorubá: Ojo Isegun.
Cor: Azul claro com Amarelo ouro.
Saudação: Olu a ô lê riki.
Adorador: Omo Logun.
Metal: Platina e Ouro.
Mineral: Coral.
Pedra Preciosa: Topázio e Brilhante.
Profissão: Jornalismo, Arquitetura, Artes em geral.
Força da Natureza: Lua, Rio e Cachoeira.
Poder: Rege os navegantes – é representado pelo peixe marinho, arco com ferramentas do mato, caça e pesca.
Fruto: Banana prata, cacau e obí.
Flor: as mesmas oferecidas à seus pais.
Comida Seca: Asosò (milho de galinha), Omolokun (feijão fradinho e ovos de galinha cosidos)com peixe de escamas assado por cima.
Aves: Galo e galinha, galinha de angola, pombo.
Quadrúpede: Bode, Cabra e caça.
Èèwò: Carneiro, Peixe de pele, a cor vermelha e a marrom, abobrinha, feijão branco, sendo que este último èèwò é para todo o povo da Nação Ketú.
Símbolos: Capacete, capanga, chifres de boi, arco e flecha, leque.
Indumentária: Azul turquesa, amarelo ouro, rosa e branco.
Ritmos: Batá, Agere, Ego, Adahun, Ìjèsà.
Folhas: as mesmas de Òsóòsi e Òsún.
Arquétipo: Bonitos e de trato fácil – orgulhosos de sua beleza – são eternamente jovens, mulherengos, calmos, educados, ciumentos e individualistas, pão – duros, narcisistas, egoístas, o que é seu é seu, vaidosos, gostam de demonstrar grandeza, quando vêem roupa cara e outra barata, compram a mais cara. Geralmente são alcoviteiros, mentirosos, teimosos, descansados, matreiros, enganadores, fofoqueiros. São ladinos, espertos e, vez por outra, inconvenientes. Além disso, tudo absorve também o arquétipo dos pais, sendo visivelmente, a cada seis meses a influência de um e depois do outro.
Cargos no Ilé Olooogunede: Por não existir uma casa especifica desse Orisà nos terreiros de candomblé ele pode a vir assumir cargos nos ilés de seus pais.

Sincretismo: Sào Miguel Arcanjo.       

O segredo de Oxum



O nascimento de um rio não acontece quando a água brota do solo e segue pela superfície da terra. Antes disso, uma seqüência de fatos desencadearam e influenciaram esse processo. Existe por traz do nascimento de um rio um enorme fundamento.

Primeiro, Olorum através do Sol, aquece a água dos lagos e oceanos. Oxumarê com seu arco-Íris, leva a água em forma de vapor para as nuvens que ficam carregadas. Xangô anuncia com seu trovão, que Iansã está juntando ás nuvens com o vento mágico que surge quando ela balança suas saias.
Quando as nuvens estão todas arrumadas, Xangô lança o Edun-Ará (pedra de raio) sobre a terra avisando a Odudúa que prepare seu ventre, pois a chuva irá cair. Ossãe pendura suas cabaças em Iroko para conter o líquido maravilhoso da vida.

O momento sublime acontece. Numa sintonia perfeita de toda a natureza, a chuva cai, trazendo consigo toda força do céu e alimentando toda a terra. Odudúa absorve todo o líquido e cria um enorme lago no interior da terra, seu ventre. Quando a água acumulada se enche de força mineral (axé), Odudúa abre seu ventre e da vida à majestosa Oxum, que brotará do solo e deslizará sobre seu leito levando vida por toda a superfície da terra. Mais a  frente água se acumulará de novo e tudo começará novamente.

Assim como a vida de Oxum tem o seu segredo, nós negros e negras também temos o nosso. A nossa história não começa em 1500 com a chegada dos portugueses no Brasil. Antes disso, uma seqüência de fatos marcaram e até hoje influenciam nossas vidas. Existe por traz do aparecimento do povo negro no Brasil um enorme fundamento.
Não somos descendentes de escravos, como dizem os livros escolares. Somos descendentes de civilizações africanas, de reinados fortes e poderosos. Somos descendentes de reis, rainhas, príncipes e princesas. Somos parentes de homens e mulheres que desenvolveram a escrita, a astrologia, a numerologia, às ciências e as pirâmides. Somos fruto de um povo que desenvolveu as técnicas agrícolas e que domina a medicina alternativa. Somos fruto de um povo que conhece as folhas e como despertar o poder delas, nosso povo sabe estar no Aiyê (Terra) sem perder a essência do Orum (Céu).



Matéria de Ricardo Andrade
Publicada na Edição 11 do Jornal Folha Popular
Municipio de Lauro de Freitas - Bahia


Qualidades de Oxum:


1) Abalu (a mais velha de todas) - ABALÔ (carrega Ogum e uma Iansã)
2) Jumu ou Ijimu (a mãe de todas, estreita ligação com as Ìyámi)
3) Aboto ou Oxogbo (feminina e coquete, ajuda as mulheres terem filhos) Xangô
4) Opara (a mais jovem e guerreira) ( Ogun, Oyá, Omolu, Oxumarê)
5) Ajagura (guerreira) ( Ogun )
6) Yeye Oga (velha e enquizilada) ( Omolu)
7) Yeye Petu - ( Oxossi, Yemanjá))
8) Yeye Kare (guerreira) ( Oxossi, Ogun)
9) Yeye Oke (guerreira) ( Oxossi)
10) Yeye Onira (guerreira) ( só usa branco Oxaguian)
11) Yeye Oloko (vive nas florestas) (Ossain, Odé)
12) Yeye Iponda (esposa de Oxóssi Ibualama, guerreira e porta um leque)
13) Yeye Merin ou Iberin (feminina e coquete) ( Xangô)
14) Yeye Àyálá ou Ìyánlá (a avó, que foi mulher de Ogum)
15) Yeye Lokun ou Pòpòlókun (que não desce sobre a cabeça de suas filhas)
16) Yeye Odo.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Religiões afro-brasileiras produzem direito de resposta coletivo contra TV Record


intolerancia religiosaEm decisão inédita do Ministério Público Federal, entidades afro-brasileiras foram autorizadas a produzir um vídeo de direito de resposta coletivo a uma reportagem da TV Record. O programa foi gravado e tornou-se público no final de 2011, mas não pode ser exibido, pois a emissora recorreu da ação e conseguiu impedimento momentâneo.
Conforme informa o vídeo, o programa é um "direito de resposta concedido pela Justiça Federal ao Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), ao Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira (INTECAB) e ao Ministério Público Federal, autores da ação contra o enfoque negativo e discriminatório das religiões afro-brasileiras".
A gravação conta com a participação de representantes de entidades ligadas às religiões afro-brasileiras e profissionais de comunicação, entre eles Iran Castelo Branco, do movimento Mídia Pela Paz, Gabriel Priolli, jornalista e produtor independente, e Laurindo Leal Filho, professor da ECA-USP.
Daniel Teixeira, coordenador do CEERT, ressalta que o caso ainda está em juízo, logo são poucas as informações que podem ser dadas a respeito. Contatada, a Record ainda não se pronunciou sobre o assunto.
Protestos na internet – No final de dezembro, a Record também virou alvo de protestos de grupos católicos que acusaram a emissora de perseguição. Ativistas indignados com reportagens exibidas nos jornalísticos da casa consideraram que a emissora de Edir Macedo realiza "ataques ao catolicismo".
Um dos movimentos se intitulou de "Brasil Sem TV Record" e convocaram os internautas via redes sociais a boicotarem a Record no dia 16 de dezembro, evento que, segundo a emissora, "não teve êxito". Outro grupo criou a hashtag #jornalismodeterceira e pediu para que os católicos não assistam mais à Record.

Conceitos de Vida e Morte no Ritual do Axexê

Nas mais diferentes culturas, a concepção religiosa da morte está contida na própria concepção da vida e ambas não se separam. Os iorubás e outros grupos africanos que formaram a base cultural das religiões afro-brasileiras acreditam que a vida e a morte alternam-se em ciclos, de tal modo que o morto volta ao mundo dos vivos, reencarnando-se num novo membro da própria família. São muitos os nomes iorubás que exprimem exatamente esse retorno, como Babatundê, que quer dizer "O-pai-está-de-volta".
Para os iorubás, existe um mundo em que vivem os homens em contato com a natureza, o nosso mundo dos vivos, que eles chamam de aiê, e um mundo sobrenatural, onde estão os orixás, outras divindades e espíritos, e para onde vão os que morrem, mundo que eles chamam de orum. Quando alguém morre no aiê, seu espírito, ou uma parte dele, vai para o orum, de onde pode retornar ao aiê nascendo de novo. Todos os homens, mulheres e crianças vão para um mesmo lugar, não existindo a idéia de punição ou prêmio após a morte e, por conseguinte, inexistindo as noções de céu, inferno e purgatório nos moldes da tradição ocidental-cristã.
Não há julgamento após a morte e os espíritos retornam à vida no aiê tão logo possam, pois o ideal é o mundo dos vivos, o bom é viver. Os espíritos dos mortos ilustres (reis, heróis, grandes sacerdotes, fundadores de cidades e de linhagens) são cultuados e se manifestam nos festivais de egungum no corpo de sacerdotes mascarados, quando então transitam entre os humanos, julgando suas faltas e resolvendo as contendas e pendências de interesse da comunidade.
O papel do ancestral egungum no controle da moralidade do grupo e na manutenção do equilíbrio social através da solução de pendências e disputas pessoais, infelizmente, não se reproduziu no Brasil.
Embora o culto ao egungum tenha sido reconstituído na Bahia em uns poucos terreiros especializados, o candomblé de egungum da Ilha de Itaparica (Braga, 1992), mais tarde também presente na cidade de Salvador e em São Paulo, está muito distante da prática diária dos candomblés de orixás e praticamente divorciados da vida na sociedade profana, perdendo completamente as funções sociais africanas originais, de tal modo que a religião africana no Brasil, disseminada pelos terreiros de orixás, acabou por se constituir numa religião estritamente ritual, uma religião a-ética, uma vez que seus componentes institucionais de orientação valorativa e controle do comportamento em face de uma moralidade coletiva exercitada nos festivais dos antepassados egunguns ausentaram-se completamente da vida cotidiana dos seguidores da religião dos orixás.
O ideal iorubá do renascimento é as vezes tão extremamente exagerado, que alguns espíritos nascem e em seguida morrem somente pelo prazer de rapidamente poder nascer de novo. São os chamados abicus (literalmente, nascido para morrer), que explicam na cultura iorubá tradicional as elevadas taxas de mortalidade infantil. Em geral, um abicu renasce seguidamente do útero da mesma mãe.
Quando uma criança é identificada como sendo um abicu, muitos são os ritos ministrados para impedir sua morte prematura. Assim como a sociedade Egungum cultua os antepassados masculinos do grupo (Babayemi, 1980), outra sociedade de mascarados, a sociedade Gueledé, celebra a mães ancestrais, às quais cabe também zelar pela saúde e vida das crianças, inclusive os abicus (Lawal, 1996).
Os festivais Gueledé não sobreviveram no Brasil (segundo o Professor Agenor Miranda Rocha, em conseqüência de disputas, no começo do século, entre lideranças do candomblé da Casa Branca do Engenho Velho, que provocaram a cisão do grupo e fundação do Axé Opô Afonjá por Mãe Aninha Obá Bií).
Também não sobreviveu integralmente a idéia de abicu e o termo passou a designar, em muitos candomblés, as pessoas que são consideradas como tendo nascido já iniciadas para o orixá a que pertencem, não devendo, assim, ser raspadas, como devem ser os demais que se iniciam na religião. A maneira fragmentária como a religião africana foi se reconstituindo no Brasil implicou, claramente, em acentuadas mudanças nos conceitos de vida e morte, mudanças que vão afetar o sentido de certas práticas rituais, especialmente quando sofrem a concorrência de ritos católicos e de concepções ensinada pela Igreja.
A tradição cristã ensina que o ser humano é composto de corpo material e espírito indivisível, a alma. Na concepção iorubá, existe também a idéia do corpo material, que eles chamam de ara, o qual com a morte decompõe-se e é reintegrado à natureza, mas, em contrapartida, a parte espiritual é formada de várias unidades reunidas, cada uma com existência própria.
As unidades principais da parte espiritual são 1) o sopro vital ou emi, 2) a personalidade-destino ou ori, 3) identidade sobrenatural ou identidade de origem que liga a pessoa à natureza, ou seja, o orixá pessoal e 4) o espírito propriamente dito ou egum. Cada parte destas precisa ser integrada no todo que forma a pessoa durante a vida, tendo cada uma delas um destino diferente após a morte.
O emi, sopro vital que vem de Olorum e que está representado pela respiração, abandona na hora da morte o corpo material, fabricado por Oxalá, sendo reincorporado à massa coletiva que contém o princípio genérico e inesgotável da vida, força vital cósmica do deus-primordial Olodumare-Olorum. O emi nunca se perde e é constantemente reutilizado.
O ori, que nós chamamos de cabeça e que contém a individualidade e o destino, desaparece com a morte, pois é único e pessoal, de modo que ninguém herda o destino de outro. Cada vida será diferente, mesmo com a reencarnação.
O orixá individual, que define a origem mítica de cada pessoa, suas potencialidades e tabus, origem que não é a mesma para todos, como ocorre na tradição judaico-cristã (segundo a qual todos vêm de um único e mesmo deus-pai), retorna com a morte ao orixá geral, do qual é uma parte infinitésima.
Finalmente, o egum, que é a própria memória do vivo em sua passagem pelo aiê, que representa a plena identidade e a ligação social, biográfica e concreta com a comunidade, vai para o orum, podendo daí retornar, renascendo no seio da própria família biológica. Quando se trata de alguém ilustre, os vivos podem cultuar sua memória, que pode ser invocada através de um altar ou assentamento preparado para o egum, o espírito do morto, como se faz com os orixás e outras entidades espirituais.
Sacrifícios votivos são oferecidos ao egum que integra a linhagem dos ancestrais da família ou da comunidade mais ampla. Representam as raízes daquele grupo e são a base da identidade coletiva.
Na África tradicional, dias depois do nascimento da criança iorubá, realiza-se a cerimônia de dar o nome, denominada ekomojadê, quando o babalaô consulta o oráculo para desvendar a origem da criança.
É quando se sabe, por exemplo, se trata de um ente querido renascido. Os nomes iorubás sempre designam a origem mítica da pessoa, que pode referir-se ao seu orixá pessoal, geralmente o orixá da família, determinado patrilinearmente, ou à condição em que se deu o nascimento, tipo de gestação e parto, sua posição na seqüência dos irmãos, quando se trata, por exemplo daquele que nasce depois de gêmeos, a própria condição de abicu e assim por diante. A partir do momento do nome, desencadeia-se uma sucessão de ritos de passagem associados não só aos papéis sociais, como a entrada na idade adulta e o casamento, mas também à própria construção da pessoa, que se dá através da integração, em diferentes momentos da vida, dos múltiplos componentes do espírito.
Com a morte, estes ritos são refeitos, agora com a intenção de liberar essas unidades espiritiais, de modo que cada uma deles chegue ao destino certo, restituindo-se, assim, o equilíbrio rompido com a morte.
No Brasil, nas comunidades de candomblé e demais denominações religiosas afro-brasileiras que seguem mais de perto a tradição herdada da África, a morte de um iniciado implica a realização de ritos funerários. O rito fúnebre é denominado axexê na nação queto, tambor de choro nas nações mina-jeje e mina-nagô, sirrum na nação jeje-mahim e no batuque, ntambi ou mukundu na nação angola, tendo como principais fins os seguintes:
1.desfazer o assentamento do ori, que é fixado e cultuado na cerimônia do bori, cerimônia que precede o culto do próprio orixá pessoal;
2.desfazer os vínculos com o orixá pessoal para o qual aquele homem ou mulher foi iniciado, o que significa também desfazer os vínculos com toda a comunidade do terreiro, incluindo os ascendentes (mãe e pai-de-santo), os descendentes (filhos-de-santo) e parentes-de-santo colaterais;
3.despachar o egum do morto, para que ele deixe o aiê e vá para o orum. Como cada iniciado passa por ritos e etapas iniciáticas ao longo de toda a vida, os ritos funerários serão tão mais complexos quanto mais tempo de iniciação o morto tiver, ou seja, quanto mais vínculos com o aiê tiverem que ser cortado (Santos, 1976).
Mesmo o vínculo com o orixá, divindade que faz parte do orum, representa uma ligação com o aiê, pois o assentamento do orixá é material e existe no aiê, como representação de sua existência no orum, ou mundo paralelo. Mesmo um abiã, o postulante que está começando sua vida no terreiro e que já fez o seu bori, tem laços a cortar, pois seu assento de ori precisa ser despachado, evidentemente numa cerimônia mais simples.
Em resumo, podemos dizer que a seqüência iniciática por que passa um membro do candomblé, xangô, batuque ou tambor de mina (bori, feitura de orixá, obrigações de um, três e cinco anos, decá no sétimo ano, obrigações subseqüentes a cada sete anos) representa aprofundamento e ampliação de laços religiosos, quando novas responsabilidades e prerrogativas vão se acumulando: com a mãe ou pai-de-santo, com a comunidade do terreiro, com filhos-de-santo, com o conjunto mais amplo do povo-de-santo etc.
Com a morte, tais vínculos devem ser desfeitos, liberando o espírito, o egum, das obrigações para com o mundo do aiê, inclusive a religião. O rito funerário é, pois, o desfazer de laços e compromissos e a liberação das partes espirituais que constituem a pessoa. Não é de se admirar que, simbolizando a própria ruptura que tal cerimônia representa, os objetos sagrados do morto são desfeitos, desagregados, quebrados, partidos e despachados.
O termo axexê, que designa os ritos funerários do candomblé de nação queto e outras variantes de origem iorubá e fom-iorubá, ou jeje-nagô, como são mais conhecidas, é provavelmente uma corruptela da palavra iorubá àjèjé. Em terras iorubás, por ocasião da morte de um caçador, era costume matar-se um antílope ou outra caça de quatro pés como etapa do rito fúnebre. Uma parte do animal era comida pelos parentes e amigos do morto, reunidos em festa em homenagem ao defunto, enquanto a outra parte era levada ao mato e oferecida ao espírito do falecido caçador.
Juntamente com a carne do animal, depositavam-se na mata os instrumentos de caça do morto. A este ebó dava-se o nome de àjèjé (Abraham, 1962: 38). O axexê que se realiza no candomblé brasileiro pode ser pensado como um grande ebó, com a oferenda, entre outras coisas, de carne sacrificial ao espírito do morto, e no qual se juntam seus objetos rituais.
Sendo o candomblé uma religião de transe, várias divindades participam ativamente do rito funerário, especialmente os orixás associados à morte e aos mortos, ocupando Oiá ou Iansã lugar de destaque. Iansã é considerada o orixá encarregado de levar os mortos para o orum, atribuindo-se a ela o patronato do axexê, conforme mito narrado por Mãe Stella Odé Kaiodé, ialorixá do Axé Opô Afonjá, que resume bem a idéia do axexê como cerimônia de homenagem ao morto.
Assim diz o mito:
“ Vivia em terras de Queto um caçador chamado Odulecê.
Era o líder de todos os caçadores.
Ele tomou por sua filha uma menina nascida em Irá,
que por seus modos espertos e ligeiros foi conhecida por Oiá.
Oiá tornou-se logo a predileta do velho caçador,
conquistando um lugar de destaque entre aquele povo.
Mas um dia a morte levou Odulecê, deixando Oiá muito triste.
A jovem pensou numa forma de homenagear o seu pai adotivo.
Reuniu todos os instrumentos de caça de Odulecê
e enrolou-os num pano.
Também preparou todas as iguarias que ele tanto gostava de saborear.
Dançou e cantou por sete dias,
espalhando por toda parte, com seu vento, o seu canto,
fazendo com que se reunissem no local todos os caçadores da terra.
Na sétima noite, acompanhada dos caçadores,
Oiá embrenhou-se mata adentro
e depositou ao pé de uma árvore sagrada
os pertences de Odulecê.
Nesse instante, o pássaro "agbé" partiu num vôo sagrado.
Olorum, que tudo via,
emocionou-se com o gesto de Oiá-Iansã
e deu-lhe o poder de ser a guia dos mortos
em sua viagem para o Orum.
Transformou Odulecê em orixá
e Oiá na mãe dos espaços sagrados.
A partir de então, todo aquele que morre
tem seu espírito levado ao Orum por Oiá.
Antes porém deve ser homenageado por seus entes queridos,
numa festa com comidas, canto e dança.
Nascia, assim, o ritual do axexê. “ (Santos, 1993: 91).
Também participam do axexê os orixás Nanã, Euá, Omulu, Oxumarê, Ogum e eventualmente Obá, não se incluindo, contudo, nesta lista Xangô, que dizem ter pavor de egum, conforme narram outros mitos.
A seqüência do axexê começa imediatamente após a morte, quando o cadáver é manuseado pelos sacerdotes para se retirar da cabeça a marca simbólica da presença do orixá, implantada no alto do crânio raspado durante a feitura, através do oxo, cone preparado com obi mascado e outros ingredientes e fixado no coro cabeludo sobre incisões rituais.
O cabelo nesta região da cabeça é retirado e o crânio lavado com amassi (preparado de folhas) e água. Esta lavagem da cabeça inverte simbolicamente o primeiro rito iniciático, quando as contas e a cabeça do novo devoto são igualmente lavadas pela mãe-de-santo. O líquido da lavagem é o primeiro elemento que fará parte do grande despacho do morto.
Depois do enterro, tem início a organização do axexê propriamente dito.
Ele varia de terreiro para terreiro e de nação para nação. É mais elaborado quando se trata de altos dignatários e depende das posses materiais da família do morto. Genericamente conserva os procedimentos básicos de inversão da iniciação, havendo sempre:
1.música, canto e dança;
2.transe, com a presença pelo menos de Iansã incorporada;
3.sacrifício e oferendas variadas ao egum e orixás ligados ritualmente ao morto, sendo sempre e preliminarmente propiciado Exu, que levará o carrego, evidentemente, e os antepassados cultuados pelo grupo;
4.destruição dos objetos rituais do falecido (assentamentos, colares, roupas, adereços etc.) podendo parte permanecer com algum membro do grupo como herança;
5.despacho dos objetos sagrados "desfeitos" juntamente com as oferendas e objetos usados no decorrer da cerimônia, como os instrumentos musicais próprios para a ocasião, esteiras etc.
Quando, no final, o despacho é levado para longe do terreiro, tudo juntado num grande balaio, nenhum objeto religioso de propriedade do morto resta no templo.Ele não faz mais parte daquela casa e só futuramente poderá ser incorporado ao patrimônio dos ancestrais ilustres, se for o caso, podendo então ser assentado e cultuado. Por ora, o egum está livre para partir.
Igualmente, o orixá ou orixás pessoais do falecido já não dispõem de assentos (ibá-orixá) no terreiro, tendo portanto seus vínculos desfeitos.O ori, que pereceu junto com seu dono, também não mais existe fixado num ibá-ori (assentamento).Se algum objeto ou assento foi dado a alguém, ele tem novo dono, para quem é transferida a responsabilidade do zelo religioso.
Nada mais é do morto.
Nada mais há que o prenda ao terreiro.
Durante o axexê, acredita-se que o morto pode expressar suas últimas vontades e para isso o sacerdote que preside o ritual faz uso constante do jogo de búzios. Assim, antes de cada um dos objetos religiosos que lhe pertenceram em vida ser desfeito, rasgado ou quebrado, o oficiante pergunta no jogo se tal peça deve ficar para alguém de seu círculo íntimo. Não é de bom-tom, contudo, deixar de despachar pelo menos grande parte dos objetos.
Quando se trata de fundador de terreiro ou outra pessoa de reconhecidos méritos sacerdotais, é costume deixar os assentos de seus orixás principais para o terreiro, os quais passam a ser zelados por toda a comunidade. Não raro,
assentos de orixás de mãe e pais de grande prestígio costumam ser disputados por filhos com grande estardalhaço, havendo mesmo relatos de roubos e até de disputas a faca e bala.
O axexê é realizado no terreiro em dois espaços: num recinto reservado, preferencialmente uma cabana especialmente construída com galhos e folhas, e no barracão. Na cabana, em que poucos entram, são colocados os objetos do morto, onde são desfeitos, aí se realizando os sacrifícios para os orixás e para o egum. No barracão são celebradas as danças, aí permanecendo os membros do terreiro, os parentes e amigos do finado.
O morto é representado no barracão por uma cabaça vazia, que vai recebendo moedas depositadas pelos presentes, no momento em que cada um dança para o egum. Todos devem dançar para o egum, como homenagem pessoal. Apesar dos cânticos e danças, o clima da
celebração é propositalmente constrito e triste. Os atabaques são substituídos por um pote de cerâmica, do qual se produz um som abafado com uso de leques de palha batidos na boca, e por duas grandes cabaças emborcadas em alquidares com água e tocadas com as varetas aguidavis.
Os presentes usam tiras da folha do dendezeiro, mariô, atadas no pulso, como proteção contra eventual aproximação dos eguns.Todo esse material, ao final, comporá o carrego do morto. No barracão também é servido o repasto preparado com as carnes do sacrifício,reservando-se aos ancestrais, orixás e egum as partes que contêm axé.
No quarto reservado, o morto é representado por recipientes de barro ou cerâmica virgens, os quais futuramente podem ser usados para assentar o espírito do falecido juntamente com os demais antepassados ilustres daquela comunidade religiosa, ou despachados.
Por influência do catolicismo, que costuma repetir a missa fúnebre em intervalos regulares, em muitos terreiros o rito do axexê é repetido depois de um mês, um ano e a cada sete anos, especialmente quando se trata do falecimento do babalorixá ou ialorixá.
Mas a maioria dos iniciados, entretanto, acaba não recebendo sequer um dia de axexê.Isto ocorre por falta de interesse da família carnal do morto, muito freqüentemente não participante do candomblé, por dificuldades financeiras, já que é alto o custo da celebração, ou por incapacidade do pessoal do terreiro para oficiar a cerimônia. Na melhor das hipóteses, os otás,pedras sagradas dos assentamentos, são despachadas com um pouco de canjica, reaproveitando-se todos os demais objetos sagrados.
Hoje, com a grande e rápida expansão do candomblé, o axexê parece estar em franca desvantagem com relação às demais cerimônias. Sobretudo em São Paulo, onde o candomblé não completou sequer cinqüenta anos, poucos terreiros dispõem de sacerdotes e sacerdotisas capazes de cantar e conduzir o rito fúnebre, obrigando a comunidade, em caso de morte, a se valer dos serviços religiosos de pessoa estranha ao terreiro, que costuma cobrar e cobrar muito caro pelo serviço.
Vários adeptos do candomblé, que se profissionalizam como sacerdotes remunerados, especializam-se em axexê. São então chamados para a cerimônia quando um terreiro necessita de seus préstimos. Isto, evidentemente, encarece muito a cerimônia, o que acaba por inviabilizá-la na maioria dos casos.
Mesmo quando morre um sacerdote dirigente de terreiro, há grande dificuldade para a realização dos ritos funerários, sobretudo naquelas situações em que a morte do chefe leva ao fechamento da casa, provocada tanto por disputas sucessórias, como por apropriação da herança material do terreiro pela família civil do falecido. Vale lembrar que se pode contar nos dedos os terreiros que, por todo o Brasil, sobreviveram a seus fundadores.
Em geral, a família do finado não tem qualquer interesse em realizar o axexê e nem está disposta a gastar dinheiro com isso. Por outro lado, pouquíssimos pais e mães-de-santo, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, se dispõe a realizar qualquer tipo de cerimônia sem o pagamento por parte do interessado, mesmo quando o interessado é membro de seu próprio terreiro. Muitos pais e mães-de-santo mantêm terreiros especialmente como meio de vida, de modo que as regras do mercado suplantam em importância e sentido as motivações da vida comunitária.
Ao que parece, o empenho das comunidades de culto na realização dos ritos funerários, na maioria dos casos, é muito reduzido quando comparado com o interesse, esforço e empenho despendidos nos atos de iniciação e feitura, como se, com a morte, pouca coisa mais importasse. Cria-se assim uma situação em que a preocupação em completar o ciclo iniciático vai perdendo importância, alterando-se profundamente, em termos litúrgicos e filosóficos, a concepção da morte e, por conseguinte, a própria concepção da vida.
Os conceitos originais africanos de vida e morte vão se apagando e o candomblé vai cada vez mais adotando idéias mais próximas do catolicismo, do kardecismo e da umbanda, criando-se, provavelmente, uma nova religião, que hoje já se esparrama pela cidades brasileiras a partir de São Paulo e Rio de Janeiro, e que muitos chamam, até pejorativamente, de umbandomblé, em que os eguns, que são na concepção iorubá ancestrais particulares de uma específica comunidade, vão perdendo suas características africanas para se transformar em entidades genéricas, não ligadas a nenhuma comunidade de culto em particular, que baixam nos terreiros para "trabalhar", assumindo a justificativa da caridade, ideal e prática cristã-kardecistas que aos poucos vão suplantando os modelos africanos de ancestralidade e seus ideais de culto à origem e valorização das linhagens.
Esta nova maneira de pensar a morte e vida por grande parte dos adeptos do candomblé, sobretudo os de adesão mais recente, constitui forte razão para a crescente perda de interesse na realização do axexê para todos os iniciados. Com isso, certamente, ganham terreno as concepções e ideais da umbanda e perdem as do candomblé.
Isto é o contrário do movimento de africanização e já há muito se constituiu num processo oposto, o da umbandização do candomblé. Sem axexê, a feitura de orixá não faz sentido, pelo menos nos termos das tradições africanas que deram origem à religião dos orixás no Brasil. O ciclo simplesmente não se fecha e a repetição mítica, tão fundamental no conceito de vida segundo o pensamento africano, não pode se realizar.

Créditos.:
TEXTO
Conceitos de vida e morte no ritual do axexê:
Tradição e tendências recentes dos ritos funerários no candomblé.
por Reginaldo Prandi
Prof. Titular de Sociologia da Universidade de São Paulo

domingo, 20 de maio de 2012

16 MANDAMENTOS – TRANSMITIDOS ORALMENTE EM YORUBÁ

Àburú Àboyé Àbosise




HERANÇA MORAL COMPOSTA DE 16 MANDAMENTOS – TRANSMITIDOS ORALMENTE EM YORUBÁ.TIRADOS DE ANTIGOS E SECULARES LIVROS ESCRITOS EM CASTELHANO, DAS SOCIEDADES DE IFÁ EM CUBA.

OS 16 MANDAMENTOS DE IFÁ NASCEM DO ODU IKAFUN.

ITAN DO ODU IKAFUN

Quando os Maiores (os Irunmales), chegaram a Terra, fizeram todos os tipos de coisas erradas que foram avisados que não fizessem. Então, começaram a morrer um atrás do outro e, desesperados, puseram-se a gritar e a acusar Orunmilá de os estar assassinando.

Orunmilá então, defendeu-se dizendo que não era ele que os estava matando. Orunmilá disse que os maiores estavam morrendo porque não cumpriam os mandamentos de Ifá. Então Orunmilá disse: A habilidade de comportar-se com honra é obedecer aos mandamentos de Ifá, o que é de sua inteira responsabilidade. A habilidade de comportar-se com honra e obedecer aos mandamentos de Ifá é minha responsabilidade também. SENTENÇA: ENI DA ILE Á BÁ ILÉ LO.

1o. MANDAMENTO

• Esúrú: falar o que não sabe;

• O sacerdote não deve enganar ao seu semelhante dizendo e fazendo conhecimentos que não possui;

• Quem abusa da confiança do próximo, enganando-o e manipulando-o através da ignorância religiosa sofrerá graves conseqüências pelos seus atos, A natureza se incumbira de cobrar erros cometidos e isto se refletirá em sua descendência consangüínea e espiritual.

2o. MANDAMENTO

ELES AVISARAM AOS MAIORES QUE NÃO CHAMASSEM A TODOS DE ESÚRÚ (CHAMAR A TODOS DE ESURÚ É CONSIDERAR TODAS AS COISAS COMO CONTAS SAGRADAS).

• O sacerdote deve saber distinguir entre o ser profano e o ser sagrado, o ato profano e o ato sagrado, o objeto profano e o objeto sagrado;

• Chamar a todos de “esúrú” é admitir que todos tenham missão sacerdotal;

• Para ser sacerdote, são necessários inúmeros atributos morais, intelectuais, procedimentais e vocacionais;

• A simples iniciação de um ser profano, desprovido destes atributos básicos e essenciais, não o habilita como um sacerdote legítimo e legitimado;

• Cabe ao sacerdote iniciador escolher com muito critério aqueles que são realmente dignos do sacerdócio;

3o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO CHAMASSEM FORÇAS, DA FORMA ERRADA “ÓDIDÉ”.

• Os sacerdotes nunca devem desencaminhar as pessoas com maus conselhos e orientações erradas;

• Os sacerdotes não devem usar seu poder religioso para o mau, se assim o fizerem serão como “ódidé”, aves noturnas que se saciam de sangue e com o sacrifício de outros;

• A mais importante função do sacerdócio: orientar, conduzir ao caminho correto, ao encontro do “irê” (boa sorte) de acordo com seus odus e orixá de cabeça;

4o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO DISSESSEM QUE AS FOLHAS DE “ARABÁ” SÃO FOLHAS DA ÁRVORE DE “ORIRO”.

ORUNMILÁ É AQUELE QUE NOS OLHA COM AMOR, NÃO FAÇAMOS POR ONDE POSSA NOS OLHAR COM DESPREZO.

• Usar de artifícios e mentiras contra as pessoas inocentes e crédulas e de bom coração, provoca o descontentamento de Orunmilá e a conseqüente ira de Elegbara;

• Aquele que usa de meios escusos enganosos contra seus semelhantes, será culpado do crime de abuso de confiança;

5o. MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO DEVERIAM MERGULHAR FUNDO, AQUELES QUE AINDA NÃO SOUBESSEM NADAR.

O SABER É FUNDAMENTAL PARA QUEM QUER FAZER.

É NECESSÁRIO O PODER QUE SÓ A INICIAÇÃO OUTORGA

OLODUMARE NÃO DEU AO IGNORANTE O DIREITO DE APRENDER SEM ANTES TOMAR DE QUEM SABE A OBRIGAÇÃO DE ENSINAR

• O sacerdote não deve ostentar uma sabedoria que na verdade não possua;

• O saber é condição básica para que se possa saber;

• Tudo deve ser feito integralmente e com legitimidade total;

• Deve o sacerdote ensinar tudo o que sabe àqueles que o cercam e que Ele confie;

• O sacerdote deve buscar orientação em quem sabe;

• O sacerdote não deve ostentar o que não sabe;

6o. MANDAMENTO

ELES AVISAVAM QUE FOSSEM HUMILDES E NUNCA JAMAIS AGISSEM COM EGOÍSMO

HUMILDADE E DESPRENDIMENTO SÃO ATRIBUTOS INDISPENSÁVEIS DE UM VERDADEIRO SACERDOTE

• O sacerdote não deve ser vaidoso de seus poderes, mas consciente deles;

• O sacerdote existe para servir e não para ser servido;

• O sacerdote não pode ser como pavão, que exibe suas plumas e desperta a sua morte; a vaidade empobrece o sacerdócio.(odu ogundakete);

• O verdadeiro sacerdote não se preocupa em provar seu saber;

• O exibicionismo não é conduta de sacerdócio;

7o. MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO ENTRASSEM NA CASA DE UMA ARABÁ

(TÍTULO DAQUELE QUE RESGUARDA OS SEGREDOS DA CHEFATURA DE IFÁ), COM MÁ INTENÇÃO.

• A iniciação não pode ser realizada por interesses que não sejam idôneas;

• A intenção de um sacerdote é servir à humanidade, a Orunmilá e aos Orixás;

• Iniciação por status ou vaidade pessoal é profanar o sagrado e assim pagará com duras penas o sacrilégio;

• Ninguém adentra impunemente ao Igbodu Ifá;

• Iniciar alguém significa responsabilidade com o sagrado.

8o. MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE DEVERIAM USAR “EKODIDÉ” PARA LIMPAREM SEUS TRASEIROS.

OS SAGRADOS FUNDAMENTOS NÃO PODEM SER USADOS COM OBJETIVOS VÃOS.

• Os tabus devem ser integralmente observados sob pena de severas conseqüências;

• O sacerdote deve submeter-se às interdições impostas pelo seu odu pessoal, assim como aos tabus de seu Olori;

• Submissão ao culto e preceito é fundamental;

• A obediência total às orientações de Ifá conduz o homem à plenitude de bênçãos;

• Não se deve usar o sagrado de forma leviana;

• Não se deve usar o poder do axé para prejudicar ninguém e em nenhuma hipótese;

• Usar o sagrado para vantagens pessoais, principalmente financeiras será continuamente cobrado e responsabilizado por isto;

9o. MANDAMENTO

• O epô é um elemento muito sagrado; é o sangue vegetal.Há de ser muito limpo e puro;

• Tudo deve ser limpo: instrumentos, pessoas, ambientes;

• Os assentamentos devem ser muitos limpos;

• As atitudes e a honra devem ser limpas e puras;

• O sacerdote deve ser escrupuloso com tudo;

• Os instrumentos litúrgicos, seus assentamentos, seu corpo, suas atitudes e seu caráter hão de permanecer sempre limpos… Muito limpos

• Nenhum orixá admite a sujeira física ou moral;

10o. MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO DEVERIAM URINAR DENTRO DO AFÓ

AFÓ É O LOCAL ONDE SE FABRICA O EPÔ

• Tudo num rito e num ato deve ter limpeza e religiosidade;

• A comida deve ser muito limpa;

• A comida deve ser realizada com religiosidade;

• O silêncio é fundamental nos atos;

• Ensinar quem não sabe e quem sabe menos é uma obrigação sagrada;

11o. MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO SE DEVE RETIRAR A BENGALA DE UM CEGO.

• Os que mais sabem hão de ter o mais profundo respeito pelos que nada ou menos sabem;

• Ninguém poderá descaracterizar o que os outros sabem e acreditam;

• Abalar a fé de quem sabe pouco ou nada sabe é retirar sua bengala;

• A mais importante missão de um sacerdote é ensinar e orientar;

• Hão de ensinar com doçura, sutileza, humildade e paciência;

• O sacerdote é um mestre;

12o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO SE RETIRA UM BASTÃO DE UM ANCIÃO

BASTÃO: SÍMBOLO DAS EXPERIÊNCIAS ADQUERIDAS;

DEVE-SE RESPEITAR E TRATAR MUITO BEM OS MAIS VELHOS

• Respeito aos mais velhos é um dos principais fundamentos da religião;

• Reconhecimento de antiguidade é posto;

• Falta de respeito, atenção, deixa-lo sem proteção é retirar-lhe o bastão.

• Os novos hão de respeitar os velhos;

• Os velhos são como livros de sabedoria que devem ser lidos com paciência e carinho;

• Numa religião aonde o saber é transmitido oralmente deve-se preservar seus velhos;

• Saber é poder!

13o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO SE DEITASSEM COM A ESPOSA DE UM OGBONI

OGBONI : TÍTULO DE MASGISTRADO, JUIZ, PESSOA DGNA DE RESPEITO

• As autoridades devem ser respeitadas integralmente;

• O ogboni representa: autoridade e leis;

• O sacerdotes devem pautar sua vida de acordo com a lei dos homens e dos Orixás;

• As leis de Ifá devem ser respeitadas e nunca alteradas e manipuladas.

14o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NUNCA SE DEITASSEM COM A ESPOSA DE UM AMIGO

• Os amigos devem ser respeitados e nunca traídos;

• A amizade entre as pessoas deve sempre ser fortalecida;

• O respeito e a ética devem existir;

15o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NÃO SEMEASSEM DISCÓRDIAS RELIGIOSAS

• Não se deve usar a religião para a guerra e a separação entre os homens;

• A religião deve unir através de Olodumarê, Orunmilá e Orixás;

• Não se deve semear a desconfiança e inimizade entre as pessoas de axé;

• DEUS é um só e todos os homens são seus filhos, portanto irmãos;

16o.MANDAMENTO

ELES AVISARAM QUE NUNCA FALTASSEM COM O RESPEITO OU QUISESSEM DEITAR-SE COM A ESPOSA DE UM SACERDOTE

• Os adeptos devem respeitar-se mutuamente;

• Uma única palavra neste mandamento: ÉTICA.

domingo, 22 de abril de 2012

SEMANA YORUBÁ E SEU SIGNIFICADO

(Conhecimento adquirido em campo pelas mãos da estimável Iyálorixá Sandra Medeiros Epega, do Ilê Lewiatô. Adupé Iyá!)

OJO AWO
(Dia do Segredo)
Orixás Regentes: Exú; Ifá; Oxun; Yemanjá; Obá; Oyá; Olokun; Yewa.

OJO ISEGUN
(Dia da Vitória)
Orixás Regentes: Ogun; Odé; Oloogunéde; Ofomon; Omolu; Ananburuku; Oxumarê.

OJO DJAKUTA
(Dia de Lançar Pedras)
Orixás Regentes: Xango; Airá; Bayani; Dada; Ajaka.

OJO AIKU
(Dia da Imortalidade)
Orixás Regentes: Obatalá; Oxogyinan; EgbÈ  (Deusa do ouro e da riqueza, chamado também, como ELERIKO).